Línguas sujas poluem praias e mancham reputação turística de AL

Alagoas tem um dos litorais mais bonitos do mundo e disso ninguém pode duvidar. As águas mornas das praias que possuem tons inacreditáveis de verde e azul atraem milhares de visitantes todos os anos, mas nem sempre causam somente boa impressão.

Voltando o olhar para as areias, é possível encontrar sinais de descaso e de desrespeito com o meio ambiente. De Norte a Sul, “línguas sujas” criam um caminho sem volta até o mar, unindo esgotos às águas salgadas que são o carro-chefe do turismo do estado.

Passear pelas areias das praias de Maceió muitas vezes é um desafio, pois são inúmeras as línguas sujas a serem dribladas pelo caminho. Nelas, junto do líquido proveniente da drenagem das águas pluviais, há também muito esgoto resultante de ligações clandestinas que é jogado ao mar, deixando-o, de janeiro a dezembro, impróprio para banho.

No interior do estado, o problema é ainda mais grave. Sem saneamento básico, as praias acabam se tornando o depósito final de todos os dejetos produzidos nas cidades.

Os relatórios do Instituto do Meio Ambiente (IMA) referentes à balneabilidade das praias alagoanas não escondem a triste realidade. Semanalmente, eles apontam inúmeros trechos impróprios para banho, baseados no índice de coliformes fecais encontrados nas águas.

Maragogi, no Litoral Norte do estado, aparece ao longo do ano com vários pontos que devem ser evitados pelos banhistas. Na capital não é diferente e poucos são os locais que não representam riscos à saúde.

O ecólogo Mateus Gonzalez explica que grande parte do líquido escuro que escorre pelas línguas sujas da capital é proveniente da drenagem das águas pluviais e do rebaixamento do lençol freático, necessário para a construção do subsolo de prédios situados na região da orla.

Segundo o especialista, a água que sai das tubulações possui uma cor diferenciada por ser rica em ferro. Ele ressalta, no entanto, que esgotos resultantes de ligações clandestinas também se misturam a essas águas e vão parar no mar, causando poluição.

“Os prédios novos, que estão sendo construídos agora, são obrigados a apresentar projeto hidrossanitário, mas com os empreendimentos mais antigos isso não acontecia e, por isso, muitos possuem ligações clandestinas de esgotos que são lançados ao mar. É um problema que precisa ser sanado, mas, para isso, é necessário identificar a fonte, o que não é fácil”, afirma Mateus.

O coordenador de fiscalizações da Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma), José Soares, fala sobre outro problema que resulta na poluição das águas: o transbordamento da rede coletora de esgoto da capital. Segundo ele, com uma rede antiga, a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) não tem dado conta da demanda e os esgotos estão seguindo para as galerias de drenagem e, de lá, para o mar.

Somente no ano passado, a Casal teria recebido da secretaria cerca de 100 autos de infração por causa do crime ambiental. Isso sem contar os mais de 50 emitidos contra bares, restaurantes, edifícios residenciais e outros empreendimentos que também fazem das praias da capital uma vala.

“O que você vê saindo das galerias direto para as praias é esgoto. A rede coletora não comporta mais a demanda e está obstruída, transbordando e jogando todos os dejetos no mar. Isso na parte baixa da cidade. Na parte alta, onde não há saneamento, os esgotos são lançados nos riachos, que por sua vez, deságuam nas praias”, ressalta o representante da Sempma.

Em nota, a Casal informou que o transbordamento de esgoto é uma situação pontual e não generalizada. Segundo a Companhia, existe um trabalho da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra) para duplicação do sistema coletor entre os bairros da Pajuçara e do Poço, o que eliminará o problema.

Reclamações

De férias em Maceió há apenas um dia, o arquiteto Pedro Castiel lamentou a existência de canais de esgoto na orla de Maceió e se disse decepcionado com o descaso no lugar que, segundo ele, tem as praias mais bonitas do Nordeste. “Escolhi Maceió justamente por seus encantos naturais e por possuir a orla mais bonita do Nordeste. Realmente fiquei surpreso ao perceber que uma cidade tão visitada por turistas ainda sofra com a falta de infraestrutura. O que mais me incomodou foi o mau cheiro que tive que enfrentar ao sentar na areia da praia”, disse.

Natural de Porto Alegre, o turista Maicon Parrot também era só insatisfação. Para ele, além dos danos ambientais, o problema também representa prejuízos financeiros, já que reduz o interesse do turista em visitar a cidade. “Olhei e fiquei desanimado ao entrar na água. É triste ver uma cidade tão bonita com problemas tão antigos”, falou.

De acordo com o secretário de Turismo de Maceió, Jair Galvão, a deficiência na infraestrutura da orla não é um assunto novo e há muito tempo o setor turístico busca alternativas eficazes para acabar com as línguas sujas.

O secretário adiantou que, recentemente, foi criada uma comissão formada pelas secretarias municipais de Infraestrutura e Urbanização (Seminfra) e de Proteção ao Meio Ambiente (Sempma), para análise e execução de projetos, ao longo de 2015, com o objetivo de melhorar a estrutura da orla de Maceió.

“Entre os assuntos que serão colocados em discussão na comissão estão o ligamento das galerias às redes de esgotos, o bombeamento dos canais e a inclusão de tecnologias biodigestoras, medidas que funcionarão de imediato e a longo prazo”, afirma.

Litoral Norte

No interior do estado, nativos, turistas e comerciantes também se incomodam com o problema e reclamam, mas cabe ao poder público a missão de fiscalizar e adotar medidas que visem à destinação correta dos esgotos. Em Japaratinga, um dos mais belos cartões postais do estado, Ivonaldo Pereira, de 40 anos, já perdeu as contas de quantos visitantes desistiram de fazer as refeições nos estabelecimentos à beira mar por conta do forte mau cheiro.

Proprietário de um restaurante há 14 anos, ele diz que as pessoas que têm o mínimo de consciência optam por não ficar na praia e nem no estabelecimento situado próximo a uma língua suja. “A cidade é pequena, mas não tem saneamento básico. Todo o esgoto vai para o mar. Já ouvi muita gente dizendo que veio, mas que não volta mais porque isso é um absurdo”, afirma.

O prefeito da cidade, Newberto Neves, admite o problema e lamenta a situação, mas diz não ter recursos suficientes para solucionar ou, ao menos, aplicar uma medida paliativa para que o mar não seja o destino final dos dejetos. Segundo ele, atualmente, o esgoto é depositado em caixas situadas à beira mar que, quando transbordam, são limpas por uma empresa contratada pelo município.

“A nossa preocupação inicial foi não deixar que o resíduo vá para a praia, por isso nós o armazenamos em caixas situadas na beira da praia. Lá ficam os esgotos de todas as casas da cidade. Quando transbordam, acionamos a limpadora de fossa para retirar. Sei que essa situação espanta os turistas, mas é uma questão difícil de resolver porque falta dinheiro. Na próxima semana, estarei indo a Brasília para tentar buscar recursos para tirar aquilo dali e desviar da praia. Acho uma coisa desumana, mas com recursos próprios não tem como fazer a obra”, diz o gestor municipal.

Segundo Newberto, os trabalhos para desviar o esgoto do mar representam um investimento aproximado de R$ 500 mil. Em relação ao saneamento da cidade, ele afirma que já foram feitos o estudo e o projeto, mas que por conta da falta de dinheiro não há previsão para que ele seja executado. “Com quinhentos mil nós conseguimos tirar da praia e jogar o esgoto para o outro lado da cidade, em um terreno que inclusive já sabemos qual será”, pontua.

Em Maragogi, o problema se repete e a busca por soluções não tem resultado em êxito. Em 2001, a sociedade civil organizada da cidade foi às ruas cobrar a execução do projeto de saneamento concebido na década anterior. Com faixas e cartazes, os moradores e o empresariado pediam o início das obras que reforçariam o abastecimento d’água e tornariam Maragogi a única cidade 100% saneada do Brasil. Essa, pelo menos, era a promessa institucional.

Orçadas em cerca de R$ 12 milhões, verba do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (Prodetur), as obras foram executadas entre os anos de 2003 e 2006 pelo governo do Estado. Aos munícipes restaram os custos para interligar o esgoto doméstico das residências à rede coletora da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) e o pagamento da taxa de saneamento, que é de 80% sobre o valor da conta de água.

Apesar de todo o investimento público e privado, nove anos depois as praias urbanas de Maragogi – considerado o segundo maior polo hoteleiro do Estado – continuam impactadas pelo despejo de esgoto doméstico sem tratamento, diretamente no mar. Uma pequena caminhada pela areia e é possível notar, ao menos, seis pontos de lançamento dos efluentes.

“Pra mim é uma situação absurda. Essa região é única no Brasil. Tirando Fernando de Noronha, não vi um lugar tão bonito como Maragogi. Deveria haver aqui um sistema de tratamento de esgoto que funcionasse”, avaliou o turista Gustavo Santos, funcionário público que reside em Aracaju (SE).

O lançamento de esgoto in natura nas praias de Maragogi acontece por dois motivos. O primeiro é que o sistema de saneamento instalado na década de 1990 para atender o Conjunto Adélia Lira (Grota) nunca funcionou a contento e encontra-se sucateado, sem funcionar.

O projeto custou quase meio milhão de reais aos cofres públicos e foi executado pela prefeitura, com recursos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). O tratamento dos efluentes seria feito por reatores anaeróbicos, que precisam de pessoas qualificadas para operá-los. Essa mão de obra nunca existiu. Uma dessas unidades de tratamento foi abandonada à margem do Rio Maragogi; encontra-se tomada pelo mato e o lixo.

Toda a água servida da Grota, então, desce o morro apressadamente até se encontrar com o mar da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais – maior unidade de conservação marinha do País – gerenciada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O esgoto do Adélia Lira estoura bem na praia urbana da cidade, nas proximidades da Praça de Eventos João e Nanu, ao lado de uma pousada.

“Os visitantes ficam decepcionados ao constatarem a presença de esgotos na orla marítima. Alguns chegam até a publicar sua insatisfação em blogs e sites de turismo, como oTripAdvisor. Foi devido ao número de reclamações que resolvemos, ao invés de enviar ofícios isolados para cada repartição, fazermos um relatório com fotos e enviar para todos os órgãos afins cobrando providências”, declarou o diretor executivo do Costa dos Corais Convention & Visitors Bureau (CCC&VB), Leandro Lira. A entidade reúne o trade turístico de Maragogi e de Japaratinga.

Quando da implantação do sistema de saneamento, executado pelo governo do Estado, o maior conjunto habitacional de Maragogi, o Adélia Lira, não foi contemplado pela obra. Os tecnocratas do governo e os engenheiros das construtoras consideraram que a Grota já era beneficiada pelo sistema da Funasa o que, teoricamente, era verdade. Na prática, porém, a coleta e o tratamento nunca existiram.

Para completar a imundice, o sistema do Prodetur – concebido na década de 1990 – só foi executado no novo milênio e dessa forma não teve como se estender às novas áreas urbanas que surgiram nesse diapasão temporal. Ficaram de fora áreas como o Conjunto Santa Tereza Verzeri.

Prejuízos

Outra fonte poluidora das praias urbanas de Maragogi são as ligações clandestinas de esgoto às galerias de águas pluviais e ao próprio sistema da Funasa, que deixou de operar há cerca de uma década. Dona Rilda Barbosa Torres sofre com um bueiro na porta de casa que exala forte odor. Na residência comprada há 15 anos, ela pretende passar o resto da vida ao lado do marido. Desde que se aposentaram, deixaram a cidade natal, Caruaru (PE), e foram morar em Maragogi. Os dias de verão têm sido um tormento para eles. Com a cidade lotada, a produção de esgoto aumenta e as galerias ficam sobrecarregadas, transbordando.

Parte do esgoto vai estourar na praia, em frente à casa de Rilda, na Avenida Senador Rui Palmeira. “Há uns 15 dias foi uma coisa horrível, de fazer vergonha. A catinga ficou de fazer dó. Não dá para entender: Maragogi, uma das praias mais bonitas do Nordeste, passando por uma situação dessa”, disse a dona de casa.

De acordo com ela, a prefeitura municipal descobriu, recentemente, quando da execução da obra asfáltica da Rua Pedro de Melo, paralela à Avenida Senador Rui Palmeira, cinco ligações clandestinas à galeria de águas pluviais que deságua na praia urbana da cidade. Donos de bares e restaurantes situados na orla marítima de Maragogi amargam prejuízos por causa do lançamento do esgoto na praia urbana da cidade.

“No final de dezembro, o esgoto esborrou e mais de trinta pessoas foram embora. Umas cancelaram os pedidos, outras nem chegaram a fazê-los. Todos abandonaram o restaurante”, recordou o garçom Marlisson Félix da Silva, cujo estabelecimento onde trabalha fica ao lado de uma bomba hidráulica desativada, que restou do antigo sistema da Funasa.

A Casal informou que não existe projeto elaborado com a finalidade de expandir o sistema de esgotamento sanitário de Maragogi, mas garantiu que o equipamento opera de forma satisfatória.

Quanto às ligações clandestinas, direcionadas à rede pluvial, a Companhia alega que cabe à prefeitura municipal o poder de fiscalização. A prefeitura, por sua vez, informou que o município encontra-se inscrito no Serviço Auxiliar de Informações para Transferências Voluntárias (CAUC) justamente por causa da não prestação de contas do projeto de esgotamento executado, na década de 1990, com recursos da Funasa.

A gestão acrescentou ainda que a negativação impede a prefeitura de receber recursos federais que viabilizariam as obras de saneamento complementares. Apesar do visível lançamento de esgoto nas praias urbanas de Maragogi, os dois pontos onde há coletas (início da orla e Praça de Eventos) estão próprios para o banho de mar, de acordo com os dois últimos relatórios de balneabilidade divulgados pelo Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Alagoas, nos dias 05 e 12 de dezembro de 2014.

De acordo com o biólogo e professor Alexandre Henrique Nunes, isso pode acontecer em função de diversos fatores, a exemplo da variação da maré, temperatura, volume de esgoto jogado no mar e período de estiagem, que diminuem a incidência de coliformes fecais na água do mar. Já as desembocaduras dos quatro principais rios de Maragogi (Salgado, Maragogi, dos Paus e Persinunga) apresentam níveis elevados de coliformes, conforme os relatórios de balneabilidade do IMA.

Litoral Sul

No sentido contrário, o Litoral Sul alagoano também impressiona pela beleza e, ao mesmo tempo, decepciona pela falta de cuidados com o meio ambiente. Na praia de Lagoa Azeda, em Jequiá da Praia, os canos ficam expostos e o esgoto é jogado ali mesmo, pra todo mundo ver.

De acordo com o município, não há saneamento básico na localidade e todo o esgoto que sai das casas situadas em Lagoa Azeda, de fato, tem sido despejado no mar. Segundo a assessoria de comunicação de Jequiá da Praia, os dejetos estavam sendo depositados em uma caixa de esgoto e, de tempos em tempos, uma empresa limpadora de fossas fazia a retirada da sujeira, mas o contrato venceu e um novo processo de licitação está em andamento para que o serviço possa ser continuado.

Enquanto um novo contrato não é firmado, o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) tem feito agendamentos de forma autônoma com uma empresa terceirizada, o que acontece sem nenhuma periodicidade.

No Francês e na Barra de São Miguel, duas das praias mais badaladas da região, as línguas sujas não existem e poucos são os trechos considerados impróprios para banho, conforme relatórios do IMA.

Ao caminhar pela Praia do Francês, apenas um ponto de esgoto a céu aberto próximo ao mar foi localizado pela reportagem, mesmo assim, a sujeira não estava escorrendo pelas areias e nem se misturando às águas do mar. Segundo o secretário de Meio Ambiente de Marechal Deodoro, Alder Flores, o saneamento básico do Francês está praticamente concluído e será entregue à população em breve.

“Durante todo o ano, a Praia do Francês é balneável. É uma das poucas praias do estado balneáveis o ano inteiro. Lá, não existe nenhuma forma de lançamento de águas pluviais ou de rio. Além disso, o município já está concluindo o sistema de esgotamento, com tratamento final do esgoto. A inauguração já acontece agora em fevereiro”, diz Alder.

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